O Atomismo antigo: Demócrito, Epicuro, Lucrécio

O Atomismo antigo: Demócrito, Epicuro, Lucrécio

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Demócrito, Epicuro e Lucrécio ensinaram que o ser é um e, ao mesmo tempo, esporádico; que o nascimento é composição e a morte desagregação; que minúsculos elementos de construção que, tomados um a um, são eternos e imutáveis, combinam-se e depois se dissociam em função de sua agitação incessante no imenso vazio. E esta intuição da essencial descontinuidade de tudo que aparece não foi em absoluto o apanágio dos gregos (encontramo-la nos Árabes da Idade Média assim como na Índia do século V a.C.), do mesmo modo que ela não é propriedade exclusiva dos antigos. Muitos, dentre os físicos contemporâneos os mais eminentes, não se desesperaram em absoluto de contribuir para a descoberta de algum quark ou de algum bóson, da “atomete”[1] ou do tijolo elementar de que, talvez, sejam compostas todas as partículas conhecidas hoje em dia.

 

Epicuro, como Lucrécio, seu maior discípulo romano, foram dois mestres de volúpia : muito mais do que em Demócrito, a filosofia dos átomos tem neles uma forte ligação com a busca do prazer, que eles identificam como bem supremo. Eles são portanto modernos também por esta razão. A sublime invocação a Vênus, que abre o poema de Lucrécio, constitui um hino ao divino prazer : toda a natureza na primavera, os mares, as montanhas, os rios e as torrentes impetuosas, as casas dos pássaros sob as folhas, tudo parece trabalhado e removido pelo charme excitante do amor. Em Epicuro, escreve Cícero, “toda a teoria do prazer se inspira da idéia de que este é sempre desejavel e deve ser buscado pela única razão de que ele é o prazer, e reciprocamente que a dor, pela única razão de que ela é a dor, deve sempre ser evitada”[2]. As crianças de berço, os animais mudos nos fazem de certo modo escutar que com a natureza por mestre e por guia não há nenhuma prosperidade que não seja um prazer, nenhuma adversidade que não seja uma dor[3]. Atenção, no entanto, às falsificações! este hedonismo não é absolutamente o dos voluptuosos inquietos, o dos Anacreontes, dos Horácios, dos Omar Khayyams e do falso epicurista do Renascimento, aquele cujo lema poderia ser esta palavra que São Paulo, seguindo Isaías, queria atribuir aos “ímpios” : “comamos, bebamos, porque amanhã nós morreremos!”[4]. O prazer epicurista é muito mais sereno, bem mais estável, e bem mais luminoso também.

É para isso, principalmente, que serve o conhecimento da física atômica : purgar o desejo de todo delírio a fim de evitar qualquer problema. Isso porque, segundo os epicuristas, num universo de que a Providência está excluída, neste Lego feito de corpúsculos insensíveis, cada um poderá medir o vazio das fábulas que agitam os mortais. Cada um poderá constatar a impossibilidade de qualquer sobrevida individual além-tumulo assim como o absurdo dos mitos relativos aos castigos no inferno. Cada um descobrirá a inconsistência do discurso dos padres e compreenderá que as instituições que eles fazem freqüentemente serem consideradas como sagradas (a começar pelas instituições políticas) só existem graças a convenções feitas por homens de carne e osso, livremente ou sob pressão. Cada um, enfim, pelo estudo da filosofia dos átomos, entenderá que se pode atingir nos limites desta vida terrestre uma felicidade intensa, durável e perfeita.

 

[1] O francês medieval possuía a palavra « atomete » (ou « athomete »), substantivo feminino, diminutivo de « atome », que designava essencialmente a menor parte do tempo, - como na expressão : momenz e atometes.

[2] Cícero, Tusculanas, V, XXXIII, 95.

[3] Ver Cícero, Dos fins, I, IX, 30 e XXI, 71.

[4] São Paulo, Primeira Epístola aos Coríntios, XV, 32 ; e Isaías, XXII, 12-14.